O Funeral



 A brisa fria da tarde de Agosto raspa nas pernas expostas da menina. O cabelo negro se despenteia e o vestido tremula. Se fosse um dia normal isso teria a deixado feliz. Teria trazido uma estranha sensação de liberdade. E junto do namorado, depois de insistir um pouco, dançariam no meio da calçada; como se fosse um filme romântico e fofo.
 Mas esse não era uma cena de um filme, se fosse, com certeza não seria aquela cena linda e divertida que o menino e a menina se olham, dançam e se beijam como se fosse a primeira vez. Alice sabia disso. Também sabia que os cabelos negros ao vento combinavam com o vestido negro e isso era uma coisa triste de saber. Parecia que o "look" que ela estava usando também combinava com a paisagem: com as árvores marrons que por causa do céu cinzento pareciam quase negras; com as folhas mortas e secas que cobriam o chão que um dia teve uma grama verdinha e aparada; combinava também com todos os outros presentes, todos vestidos de preto, grande parte usando chapéu e muitos olhos vermelhos e inchados.
 Na frente dela o caixão se estende, do outro lado do caixão sua mãe chora com as tias de Alice, todas são irmãs mas de longe não parecem, cada uma com um estilo diferente, com cabelos de cores diferentes e com atitudes diferentes: a mãe chora encolhida no canto das duas tias, tem um vestido preto e básico e tem o cabelo igual o da filha; sua tia Anna já usa um terno, os cabelos loiros e lisos, recém pintados, estão em um coque e Anna abraça a outra irmã, Aline; esta, tem cabelos castanhos avermelhados e tem uma roupa um pouco espalhafatosa para tal situação, o que combina com o modo que chora, este, tão espalhafatoso que atrai o olhar de qualquer um que passasse na rua. As três eram muito diferentes, mas partilhavam da mesma dor.
 Com muito cuidado, as três se abaixaram e jogaram um pouco de terra cada uma no caixão. O vento ficava cada vez mais forte, e a chuva parecia estar cada vez mais perto.
  Do lado de Alice, o namorado assistia tudo, se sentia meio perdido se a abraçava ou se apenas ficava lá, e acabou pegando a mão da namorada. Essa, ao sentir o toque, se sentiu momentaneamente melhor, ele estava junto dela e isso era a melhor coisa que acontecia na semana inteira. Ela se sentia mais forte, mas a sensação foi tão breve, que ela desconfiou que fosse uma mentira que ela acabou acreditando.
  A mãe e as tias continuavam olhando para o caixão, como se esperassem que tudo aquilo fosse apenas uma mentira, uma brincadeira de mal gosto que logo acabaria, mas no fundo todos sabíamos que não era, e essa era a pior parte de tudo. Alice achava que estava bem, estava sendo forte pela mãe, as duas não podiam desabar no mesmo momento.
  Mas mesmo assim, Alice sentiu uma lagrima cair, escorrer pela bochecha, passar pelos lábios dando um gosto salgado a boca, e se pendurar no queixo até finalmente cair no tecido do vestido preto; após dessa veio mais uma, e mais uma, todas seguindo o mesmo trajeto: bochecha, lábios, queixo e vestido. As pernas cederam. Lagrima atras de lagrima, elas inundavam a visão de Alice ate ela não passar de um borrão.
 Do lado dela, o namorado a abraça. Ela o empurra e grita, mas ele não a solta. Depois de um tempo ela desiste, e começa chorar na blusa dele. Segundos depois a camisa já esta encharcada, mas ele não liga. É somente uma camiseta, ele pensa.
  O padre começa rezar, seria uma cerimonia bem simples, todos sabiam disso. Alice tentava controlar seu choro para tentar prestar atenção no que o padre dizia, mas toda vez que o nome do seu avô era mencionado ela caia no choro novamente. Por fim a cerimonia acabou. O caixão não estava mais a vista. E Alice parou de chorar. Simplesmente parou. Mas um estranho vazio ficava no seu peito. Ela queria que este vazio fosse embora, choraria cem dias se necessário, não aguentava aquele vazio; aquela memória constante que ele não estava mais lá.
  O vazio nunca sumiu. Mesmo após cinco, dez, quinze anos depois, ele continuava lá. Mas a dor se tornou uma convivência e se encaixou na rotina corriqueira de sua vida. Ela não chorava mais, pelo menos não por isso. A vida te deu outras mil razões de chorar. E a cada choro ela se sentia mais forte. A cada perda, Alice notava que algo se juntava nela, uma lembrança constante que ela ficaria bem, e aquelas perdas estariam com ela do jeito mais inesperado que ela podia imaginar. Mas estariam lá por ela. Uma lembrança constante que ela era mais forte do que pensava.

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